domingo, 20 de junho de 2010

Miúda.

faz pouco tempo você nasceu. gosto de lher ver assim puequenina, ensaiando seus primeiros passos. gosto de lhe ver cheia de vida e vontade de aprender. gosto de lhe ver, sobretudo, quando ri abrindo a boca, mostrando os dentes. faz pouco tempo você nasceu, mas preciso dizer que a muito esperávamos por sua chegada. muito pensamos, discutimos, elaboramos para que você pudesse ter a chance de adentrar um lar estruturado. na verdade, você agora é o nosso lar. o que podemos chamar de CASA. o que melhor interpreta e impõe sentido ao que chamamos de trabalho. faz pouco tempo você nasceu nós já estamos pensando em seu futuro, sua identidade e vontade. estamos pensando nos seus quereres, em como mostrar sua grandiosidade. espero que você goste das coisas que, aos poucos, conhecerá. estou feliz com o seu nascimento.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Admitir que nesse momento não há tempo para o amor. E nem para as grandes paixões. quando nos apaixonamos.



Robert Polidori

abraça-(me-te) 500.3

me abraço para te encontrar. te abraço para me encontrar. em meus braços, você se encontra. em seus braços, eu me encontro. me abraço para me encontrar. te abraço para te encontrar. nos abraçamos para, juntos, acharmos uma saída, uma resposta, uma palavra, algo que re-signifique o momento de nosso encontro. nos abraçamos nus. ocupamos áreas urbanas, pontos de complexos fluxos de linhas e pessoas. nos abraçamos para estagnar o instante e o afeto. e é a repetição deste nosso "movimentoencontro" o que nos move para, mais uma vez, nos realocar. encontrar encaixes, novas possibilidades e derrubar fronteiras. sou eu mais você. o nosso corpo atravessado que se povoa da sensualidade que nos habita quando estamos juntos. me abraço para ter certeza de que em meus braços você se fará conforto. te abraço para confirmar presença humana para além de meus braços. me abraço porque não posso e não quero sozinho. te abraço em busca de caminho. nos abraçamos e cruzamos sinais, ruas, avenidas, alamedas, plataformas, viadutos, estradas, autoestradas, elevados, pontes, passarelas, trilhos, vielas, travessas, ruelas, monumentos, praças, largos, parques, campos, jardins, arcos, pórticos, portais, vilas, condomínios, bairros, esquinas, calçadas, corredores, pistas, orlas, vãos, túneis, passagens, passagens subterrâneas, aterros, pátios, estacionamentos, marginais, becos, teleféricos... atravessamos lugares e neles nos abraçamos. abraço-(me-te) para sobreviver. para dar validade as horas que passamos juntos. para lembrar do amor que sinto por ti. por isso, por esta razão é que também te abraço. abraço-(me-te) para me sentir seguro, para continuar, para ficar no entre, para me perder: te encontrar. me abraço te abraçando e te abraçando me abraço. me encontro porque te encontro. abraço-(me-te) porque asssim, e só assim, me reconheço.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Eu preciso que você esteja aqui porque:

eu preciso que você esteja aqui porque você se tornou importante. muito importante. eu preciso que você esteja aqui porque, talvez, sem a sua presença as coisas percam o sentido. eu preciso que você esteja aqui porque ao seu lado eu me sinto mais seguro. minto. eu me sinto acompanhado. eu preciso que você esteja aqui para que possamos trocar de assunto muitas vezes, como sempre fazemos. eu preciso que você esteja aqui porque preciso ouvir suas críticas. suas lamúrias e conflitos. eu preciso que você esteja aqui porque sinto uma falta filha-da-puta de você quando o vejo atravessar a rua. eu preciso disso: você. eu preciso que você esteja aqui porque nosso sorvete de limão pode derreter e suco de laranja com acerola só tem graça se for com você. eu preciso que você esteja aqui porque não sei alimentar o cão, comprar o jornal, nem limpar nossos sapatos. eu preciso que você esteja aqui porque, as vezes, eu preciso sair e tenho receio de deixar as coisas sozinhas. eu preciso disso: você. eu preciso que você esteja aqui porque eu comi demais e acho que não vou passar bem essa noite. eu preciso, e isso é sério, que você esteja aqui porque eu não aprendi ainda a mexer no telefone sem-fio novo e tem mais de 13 recados na secretária eletrônica. estou me rasgando de curiosidade. eu preciso que você esteja aqui para sanar minhas dúvidas, me explicar a lição, me amar bandido e me fazer, depois, servir seu café fresco em copo-requeijão. eu preciso que você esteja aqui porque seus livros chegaram e as estantes já estão abarrotadas. precisamos, juntos, fazer uma limpa. e é também por isso que eu preciso que você esteja aqui. eu queria parar de fumar um dia. eu preciso que você esteja aqui porque eu quero lhe dizer umas coisas que li ontem em um livro sobre elefantes e sofás. eu preciso que você esteja aqui porque não sei dividir esse tipo de coisa com mais ninguém. eu preciso que você esteja aqui para ver o meu progresso no video-game que não tem mais graça jogar contra o computador. eu preciso que você esteja aqui porque sim. eu preciso que você esteja aqui. dentro de mim.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O teatro é necessário!

PARA QUEM?

Tentativa de decifrar o saco:

Fica disso tudo o não saber. Fica uma vontade latente de contar certa trajetória que ainda não tem nome. Fica a imagem da CASA, seus habitantes. Fica uma pesquisa sobre espaço. O espaço onde essa CASA possa se fazer presente. Persiste o pensamento da casa como não lugar, como meio, como ponto de cruzamento de diferentes linhas. A CASA como um rizoma, sem início ou fim. Sem origem e destino. Só o miolo e o seu modo de estar, de se fazer presente.

Fica para a CASA e as evidências fragmentadas que carrega. Se for organizada por fora, é remexida, doída, caótica e poluída por dentro. Se for bagunçada por fora, por dentro é limpa, simples, plástica, exata. É a CASA, por si só, um paradoxo. Não exibe o que nela habita.

Seus personagens são lacunas, quinas, dobras, estantes e calendários. São pessoas comuns que, por determinado motivo, revelado ou não, foram obrigadas a reorganizar suas vidas. São seres humanos arrebatados, portadores de dores e prazeres pequenos. Pessoas que tentam se lembrar do que somos forçados a esquecer todos os dias.

Para esta CASA outro tempo. Outra pintura. Outro tom. Sistemas de convivência doméstica elaborados para lidar com o erro, com o acaso. Medidas de segurança, mentiras tidas como verdade. Loucurinhas, transtornos obsessivos dilatados em poesia, explodidos no espaço.

Quando um copo se quebra, ela repete ao marido que lhe ama. Quando a porta se abre, ele explica todas as doenças que já teve, das mais sérias a mais breve. No final, diz a todos que vai morrer da memória. Gostava de se tacar no chão. Muitas vezes para sentir a dor que este movimento era capaz de provocar. Quando foi Natal, ganhou de presente do pai um colchão e se tacou pela janela.

A CASA refém de seus habitantes e também o inverso desta afirmação. Não se sabe se o estado da CASA justifica quem nela mora ou se quem nela reside a justifica. A degradação interior e exterior. São histórias, pequenos fragmentos que não serão criados para gerar nos espectadores um estado passivo. Pelo contrário, a CASA é um convite. Ainda há vagas para diarista e acompanhante de idosos.

É.

Escrever é um demônio.